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Ética e eficiência

Paulo César Carbonari [1]

Eficiência é, junto com a eficácia, uma das palavras mais repetidas em nosso tempo. Outra, é ética, também invocada despudoradamente. Por serem tão repetidas, resultam confundidas – talvez para dizer o que não pode ser dito. Confundidas no uso comum, resultam em defesa do mais crasso dos pragmatismos. Confundidas em sentido técnico, resultam em inviabilização de uma, a ética, em favor da outra, a eficiência. Ademais, quando inseridas no processo eleitoral, com vêm sendo, resultam em conseqüências ainda mais problemáticas, para não dizer, ideológicas.

A confusão no uso comum leva ao pragmatismo crasso. Uma das acepções mais usadas da eficiência, a entende como “característica de (uma pessoa, um maquinismo, uma técnica, um empreendimento etc.) conseguir o melhor rendimento com o mínimo de erros e/ou de dispêndio de energia, tempo, dinheiro ou meios”, o que significa dizer que exige eficácia, atingir o resultado esperado. Ètica, também no uso comum, é entendida na acepção de qualidade da pessoa que age de acordo com a moralidade, a qualidade dos melhores. Assim que, em termos comuns resulta fácil associar eficiência e ética, visto que, uma pessoa que pretende ser ética haverá de ser eficiente, conseguindo o melhor rendimento.

Em sentido técnico, eficiência e ética são conteúdos epistemológicos com desdobramentos históricos distintos. Enquanto a primeira diz da capacidade aplicativa da inteligência humana lidar com o mundo das coisas, transformando-as em processos e resultados, o máximo possível próximo da perfeição; a segunda diz da capacidade intelectual que faz o ser humano compreender, refletir, avaliar e re-orientar seus próprios atos. Recorrendo a distinção aristotélica, uma é típica da razão poiética, a outra da razão prática. Ainda seguindo o mesmo raciocínio, uma exige que o homem seja um bom técnico, atingindo, por seu trabalho – em sentido moderno – a perfeição do objeto fabricado; a outra exige a perfeição do agente, do próprio homem, com ser individual e também como ser social. Em suma, confundir eficiência e ética corresponderia a confundir coisas e pessoas, ou melhor, a relação dos humanos com as coisas e com as pessoas.

Avançando. É desejável sim que toda ação humana, seja, ao máximo, tanto eficiente quanto ética. Ou seja, que ao lidar com a produção de coisas, leve em conta que estas têm serventia para os humanos e por isso estão dirigidas eticamente. O inverso é que não parece aceitável. Ou seja, aceitar que, ao lidar com pessoas, paute-se pela eficiência. As coisas – apesar dos esforços da ciência neurológica de ponta e das tentativas de inteligência artificial – ainda não são livres e, portanto, não estão dotadas da capacidade de ponderação e escolha – e de avaliação e responsabilização pelas ações empreendidas –, típicas dos humanos. Mesmo que o tempo que nos é dado viver insista em nos fazer crer que, quanto mais coisas estiverem agregadas às pessoas, mais serão seres humanos, ainda assim, a prudência (frônesis, em sentido aristotélico), típica da racionalidade prática, recomenda que ser virtuoso é obra do humano, é seu ergon, nunca das coisas. 

Pretender dar a ética o nome de eficiência é inaceitável ao olhar crítico e prudente. É assim exatamente por advogar um reducionismo, um inconseqüente rebaixamento, do humano a menos do que seu gênero (animal), inserindo-o noutro (das coisas), o que inviabiliza sua espécie. Portanto, fazer isso é esperar que os humanos construam sua identificação pelo avesso. Do outro lado está a compreensão que entende que a racionalidade, múltipla, crítica, criativa e ética, haveria de ajudar os humanos exatamente a ser mais humanos.

 

[1] Professor de filosofia (IFIBE) e  coordenador nacional de formação do MNDH.

 

 


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