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A Escassez de Democracia

Dirceu Benincá [1]

O atual processo eleitoral tem suas peculiaridades. Entre outras, verifica-se uma nítida apatia de grande parcela dos eleitores. Inovou-se em normas que parecem estar inibindo o excesso de poluição visual da campanha. Sob todos os aspectos, limpar a política é uma exigência ética fundamental sempre válida. Ante a corrupção que aflorou abundante nos últimos tempos em nosso país, circulam listas pela Internet, identificando os envolvidos e suas respectivas ações abomináveis. Trata-se de um mecanismo válido que pode contribuir para não reelegermos os corruptos declarados. 

Por conta de maquinações feitas por usuários de cargos políticos, muitas pessoas se mostram enfastiadas com eleições. Não obstante ao reduzido crédito atribuído às instituições políticas e à ineficiência de certas políticas governamentais, votar é muito importante. Nunca é demais recordar que o voto não tem preço, mas tem conseqüências! Escolher os candidatos mais preparados, idôneos e comprometidos com o bem comum é imprescindível. Não podemos nos furtar a esse direito, também feito um dever. Votar é preciso, muito embora seja insuficiente.

Em face de certas decepções, alguns eleitores julgam por bem votar em branco. Na política, o “branco” pode espelhar uma posição de desconformidade. Contudo, a vida política de uma sociedade não pode ser a soma das desconformidades dos seus integrantes. Quanto aos candidatos, há quem ceda à tentação do carreirismo ou transforme a política numa câmara de interesses privados. Por isso, o eleitor/a precisa ser também um fiscalizador/a do comportamento e da atuação do candidato/a a quem confiou seu voto. 

Para quem aposta unicamente na democracia representativa, aqueles poucos segundos diante da urna podem se tornar algo meio mágico. Aí mesmo o eleitor/a se desfaz de toda responsabilidade pelo resultado do “jogo”, exatamente porque entende que delegou a outra pessoa o dever de fazer o que bem entender sobre qualquer coisa que julgar por bem fazer. Se o voto for a única maneira de exercer a cidadania política, o “jogo” da eleição é absolutamente reducionista e alienante. Sabe-se que a eleição não esgota as formas de democracia. 

Tivemos, no Brasil, 20 anos de amarga ditadura. Nesse tempo não havia liberdade de expressão, nem direito ao voto. Em vista da “segurança”, impunha-se a censura geral. Depois tivemos a chamada abertura democrática. E pareceu-nos coisa do “outro mundo”. Na verdade, do mundo da liberdade que se foi conquistando aos poucos como um direito. Passamos a ter a possibilidade do voto, da livre expressão, o direito de ir, vir, falar e ficar. Assim transcorreram mais 20 anos, sob a democracia representativa. Mas, isso não nos é o bastante. É preciso democratizar a democracia ou, como dizem alguns, radicalizar a democracia. 

Necessitamos avançar na democracia participativa, isto é, na democracia direta através de Conselhos, Movimentos Sociais, Organizações Populares, Fóruns, Redes etc. Esses espaços vêm se constituindo em significativas formas de participação política e cidadã. A democracia representativa não pode ser desprezada, mas não é o remédio para todos os males. Não é suficiente garantir participação nos rumos políticos do país, do estado ou município. Temos de ramificar e qualificar a democracia a fim de que ela seja exercida também no âmbito econômico, cultural, eclesial, sócio-ambiental, enfim no conjunto das dimensões da vida humana.

 Creio que estamos adentrando em um novo período democrático. Nos próximos 20 anos nosso grande desafio será o de consolidar a democracia direta para que a política tenha um novo rumo e consiga desempenhar a sua missão mais essencial que é fortalecer a cidadania e a soberania da população. A democracia, entretanto, carrega suas exigências. Para alguém participar, é necessário,  no mínimo, três condições básicas: 1) Que tenha sua sobrevivência garantida; 2) Que não esteja ameaçado pela violência ou outros problemas; 3) Que possua informações adequadas que subsidiem sua participação. 

Em tempos de certas decepções políticas, urge uma democracia de alta intensidade. Não podemos ceder à tentação do enojamento, indiferença ou analfabetismo político. Precisamos acender outras luzes. A política e a democracia também podem e devem ser reinventadas. Participemos da democracia representativa enquanto vamos forjando outros modos de participar. Trata-se de buscar a democracia sem fim para que as ditaduras do neoliberalismo tenham fim.

 

[1] Dirceu Benincá é mestre em Ciências Sociais (PUC-SP), professor do ITEPA, Passo Fundo, RS e Padre da Diocese de Erechim, RS.

 
   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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