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Democracia e Alteridade

Paulo César Carbonari [1]

Democracia é presença. Presença é participação. Participação é interação. Interação é agir através da alteridade. Alteridade é, portanto, o núcleo forte da democracia. Todavia, as democracias que conhecemos são funcionalizadas e, via de regra, não tem na alteridade sua nuclearidade. Estão centradas no jogo do poder e sua manutenção de acordo com as regras. 

Liberais e republicanos historicamente discordam do significado da democracia. Sempre, porém, mais afeitos a seu procedimento do que à sua substantividade. Liberais lhe atribuem a tarefa de instituição do poder do Estado como exercício de indivíduos livres e autônomos que contratam entre si regras que, em hipótese alguma, podem opor-se a seus interesses fundamentais, chamados de direitos. Republicanos lhe atribuem a tarefa de formação da vontade coletiva em vista da realização, da melhor forma possível, do bem comum como expressão da virtude inerente a cada indivíduo e sua vocação para o coletivo. Os primeiros aferram-se à forma; os outros ao conteúdo. É como se uma e outro pudessem subsistir.

A questão chave na qual concordam é que a soberania popular é exercício público da liberdade, de tal forma que os detentores do poder encontrem os melhores meios de constituição do seu exercício. Mesmo que ambos concordem que é a soberania popular que institui o poder e seu exercício seja tarefa de representantes, liberais entendem que a participação ocorre somente no processo de constituição (pelo sufrágio); republicanos a requerem de forma direta na definição de temas centrais de seu exercício. Por isso, uns e outros não se entendem: discordam sobre o núcleo chave da democracia, a alteridade. Aliás, ambos têm dificuldade de lidar positivamente com ela e tendem a contentar-se, por caminhos diferentes, a adequação dos procedimentos.

Propor-se a pensar a democracia centrada na alteridade é ir além do que liberais e republicanos apontam. A alteridade, idéia força da democracia, tem na diferença, na pluralidade, na presença, na participação, seu conteúdo e sua forma. Por isso, demanda que a democracia seja construída mais como processo e menos como procedimento; mais como mediação de conflitos e menos como formação de consensos; mais como inclusão e menos como disputa de maiorias e minorias; mais como construção e legitimação permanente de regras e menos como cumprimento de regras do jogo. O mais e o menos não se apresentam como pólos de escolha alternativa e excludente. Exigem superação dialética.

Democracia com alteridade é entender o sentido do poder como por a ação em movimento, de tal sorte a traduzi-la em obra. Democracias substantivas implicam a incorporação organizada dos diversos sujeitos – e da diversidade dos sujeitos – aos processos políticos como condição para o acesso aos bens materiais e culturais produzidos socialmente e à dinâmicas de reconhecimento.

Assim que, viver profundamente processos eleitorais exige muito mais do que escolher o melhor candidato – como se estivéssemos consumindo um produto, o que melhor é trabalhado pela estratégia de propaganda. Está em questão identificar processos e propostas, dinâmicas e sujeitos, divergências e convergências, sob o crivo da alteridade. O processo de escolha – decisão e voto – é mais do que cumprimento de uma exigência funcional da regra do jogo da democracia; é comprometer-se com a construção de um novo jogo. Nele, o papel a ser exercido é mais do que de técnico – ou de patrão que contrata um funcionário, no dizer redutivo do comercial do TSE – que escala o time e se retira para a arquibancada, como torcida. Quando centradas na alteridade, democracias são muito mais do que um jogo; são construção, permanente e sempre nova, de um modo de ser social e político.

 

[1] Professor de filosofia (IFIBE) e defensor de direitos humanos (MNDH).

 
   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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