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Delírio(!)
Paulo
César Carbonari [1]
O
médico-candidato à presidência na disputa em segundo turno,
Geraldo Alkmin, declarou, em entrevista à Folha de São Paulo no
dia 03/10/2006, que se considera à esquerda de Lula. Disse: “Sou mais
à esquerda no apreço à democracia e no sentido econômico,
minha agenda será a do crescimento”. Justificou dizendo que seu adversário
“tem um perfil autoritário” e que, no governo Lula, a agenda econômica
“precisou ser mais ortodoxa”: “eles foram ultraconservadores”. A posição
do candidato foi dada em resposta à pergunta do jornalista que fez referência
à avaliação do banqueiro Olavo Setúbal que havia
declarado que ambos os candidatos são igualmente conservadores. A Folha
comenta, na introdução à entrevista, que esta posição
do candidato vem em função de conquistar votos dos dois candidatos
ex-petistas derrotados no primeiro turno da corrida presidencial.
Seja
qual for o motivo da posição e sem entrar no mérito
profundo do significado político-ideológico da declaração,
nota-se que mostra, no mínimo, que estamos diante de uma situação
de delírio, talvez comum em momentos de acirrada disputa eleitoral. Louvável
o esforço de auto-classificação ideológica do
candidato que, talvez, na pretensão de ganhar votos de um lado, pode
exatamente perde-los no seu próprio ninho, historicamente classificado
por todos os analistas minimamente sensatos como sendo pelo menos mais
conservador do que o de seu adversário petista.
Para
buscar a compreensão do estado que levou à declaração,
recorremos ao velho Galeno (131-200), um dos grandes médicos antigos –
difícil usar o mesmo adjetivo para o medico-cadidato –, que relata um
episódio pessoal de delírio. As palavras de Galeno: "Alguns
também deliram por causa do desarranjo de sua faculdade de pensar, mas
conservaram por um curto momento sua faculdade crítica e a recuperaram o
bastante para... resistir e compreender o que lhes ocorria... eu acreditava ver
esvoaçando sobre meu leito fiapos escuros... eu executava movimentos para
pegá-los... Ouço dois meus amigos presentes dizerem entre eles
'olha ele já está tentando pegá-los'. Eu compreendi
perfeitamente o que me estava acontecendo, o que eles diziam, e como sentia em
mim que minha inteligência não sofria perturbação eu
disse: Vocês têm razão, venham ajudar-me para que a loucura (phrenitis)
não me domine". O relato mostra um caso de delírio dos
sentidos e não de delírio da razão. Ora, os “fiapos” não
existem. Mesmo que haja a convicção de uma sensação
de sua presença, a consciência indica a falsidade de tal percepção.
Galeno discorda da posição que vê o delírio como
erro, incoerência, entre a experiência sensorial e a realidade
objetiva. Ele aposta na razão, na "faculdade crítica",
que leva à consciência da percepção e à distinção
entre sensação e realidade.
Seguindo
o raciocínio de Galeno, por um e por outro motivo, confirma-se que as
declarações do médico-candidato podem ser classificadas
como delírio. Talvez alguém prefira classifica-las como alucinação.
Tanto um quanto outra. É alucinação por apresentar incoerência
entre a experiência sensorial transformada em proposição e a
realidade objetiva. É delírio por abdicar da faculdade crítica,
abrindo mão da consciência da distinção entre o dito
a partir da sensação e a realidade objetiva.
Oswaldo
Porchat, um dos mais eminentes filósofos brasileiros contemporâneos,
em entrevista à Folha de São Paulo, em 16/01/1994 dizia que, um
pouco de ceticismo, que não é sinônimo de pessimismo,
é necessário ao homem comum, o que revela antes seu otimismo.
Segundo ele: “O ceticismo pretende denunciar o uso inadequado da razão.
Pretende desmistificar os exageros, os desmandos e os delírios da razão
humana. Pretende levar o homem para o exercício sadio da sua
racionalidade. O ceticismo, para mim, significa ‘Denunciemos os mitos, vivamos
com intensidade a experiência e façamos da razão um
instrumento de exploração das possibilidades e riquezas da
vida’". Não creio que seja necessário acrescentar algo.
Talvez, somente que, tanto o dito por Galeno quanto por Porchat são
posturas necessárias à sobriedade da razão exigida também
em processos eleitorais.